Todas as semanas aparece na sua caixa de entrada uma ferramenta de IA "revolucionária" — e todas as semanas alguém na empresa se apaixona por uma demo. Entre o entusiasmo de quem quer adotar tudo e o bloqueio de quem desconfia de tudo, falta o que este artigo oferece: um processo de avaliação rápido, repetível e à prova de demos ensaiadas.
Antes de avaliar a ferramenta, avalie a necessidade
Três perguntas que matam metade das aquisições desnecessárias:
- Que problema concreto resolve? "Seria fixe ter" não é um problema. "A equipa gasta 6 horas/semana nisto" é.
- As ferramentas que já pagamos fazem isto? Metade das "ferramentas de IA" são funcionalidades que o Microsoft 365, o Google Workspace ou o ChatGPT que já têm fazem igual.
- Isto é uma ferramenta ou uma funcionalidade? Muitos produtos de IA são um wrapper fino sobre o mesmo modelo que já usa — com uma landing page bonita e um preço por cima.
O checklist de due diligence (30 minutos, não 3 meses)
Dados e segurança — eliminatório
- Os nossos dados são usados para treinar modelos? (Deve haver opção contratual de não-treino.)
- Onde são processados e armazenados? UE ou com salvaguardas adequadas?
- Há DPA (contrato de processamento de dados) disponível? Sem DPA, dados pessoais não podem lá entrar — ponto. (RGPD e IA.)
- Certificações verificáveis (SOC 2, ISO 27001) ou apenas alegações no site?
Fornecedor — sobrevivência
- A empresa existe há quanto tempo? Tem clientes de referência contactáveis?
- O que acontece aos nossos dados se fecharem ou formos embora? Exportação em formato aberto é obrigatória.
- Dependem de um único modelo/fornecedor a montante? (Se a OpenAI lhes muda os preços, o que acontece ao vosso contrato?)
Custos reais — além do preço por utilizador
- Preço por utilizador × utilizadores reais (não os inscritos) + implementação + formação + integrações.
- Como escala o preço? Muitas ferramentas de IA cobram por uso — peça simulações com o vosso volume.
- Custo de saída: quanto custaria migrar daqui a dois anos?
IA Act — a camada nova
- O uso previsto toca categorias de risco elevado (RH, crédito, etc.)? Então exija a documentação de conformidade do fornecedor — a obrigação também é vossa. (O essencial do IA Act.)
O teste que nenhuma demo sobrevive: o piloto
Nunca compre pela demo — ela corre num cenário ensaiado com dados perfeitos. Exija um piloto de 2-4 semanas com:
- Os vossos dados e casos reais — incluindo os feios: o PDF digitalizado torto, o email ambíguo, a exceção.
- Métricas definidas antes — taxa de acerto, tempo poupado, adoção. "Parece que ajuda" não é métrica.
- Utilizadores céticos incluídos — o piloto só com entusiastas mente. Se convence o cético da equipa, convence toda a gente.
- A pergunta assassina ao fornecedor: "mostre-me o que acontece quando a ferramenta encontra um caso que não sabe tratar". A resposta (ou o silêncio) diz-lhe tudo sobre a maturidade do produto.
Depois da adoção: a cláusula de revisão
O mercado de IA muda a cada seis meses. Contratos anuais em vez de trienais, e uma revisão semestral simples: continua a resolver o problema? o uso justifica o custo? apareceu algo claramente melhor? As empresas que tratam o stack de IA como carteira viva — e não como casamento — pagam menos e trabalham melhor.